23/09/10






Mais que o homem sem opiniões, espera-se o Homem Sem Nome.







Mais que o homem sem qualidades, espera-se o homem sem opiniões.



16/09/10

Primeiro Paragrafas – Martinho Deão

 "Poucos anos mais velho que S., J. falava abundantemente e de forma convoluta, cada frase torneada individualmente e como que abstraída tanto das que a precediam como das que se lhe haviam de seguir, curvando-se nos extremos, desviando-se do rumo do discurso para miraculosamente o retomar no nem sempre óbvio núcleo de cada nova sentença, pelo que conversar com J. equivalia a encetar diálogo com uma daquelas recolhas de sabedoria popular que tudo misturam em capítulos encimados pela esclarecedora designação dos temas a tratar, como Amor ou Velhice – uma colecção de adágios e axiomas avulsos que alia ao provérbio chinês o aforismo de Schopenhauer e o paradoxo de Wilde, que junta ditos campesinos com máximas romanas e credos cristãos, que une slogans, lemas, refrões e verbetes numa amalgamada e malparida enciclopédia dos pobres; e nisto lembrava-lhe G., esse outro pedagogo da citação obscura e da alusão ininteligível."

DEÃO, Martinho, Primeiro Paragrafas, Guarda: Bosque Editora (1978)

19/08/10

Música e Loucura

Sempre me atraiu a loucura enquanto tema literário: lembro-me do entusiasmo com que, por volta dos 14-15 anos, iniciei a leitura do Elogio da Loucura de Erasmo, apenas para me desiludir com a natureza satírica e alegórica do texto. Recordo também como, uns anos mais tarde, a obra de David Cooper exerceu em mim o efeito contrário. Tal como na literatura, sempre me interessaram as representações da loucura na música; esta é uma das minhas favoritas (e com um vídeo a condizer):




Também me agradam particularmente All the Madmen de Bowie e Committed de Roy Harper, esta última sem dúvida com conhecimento de causa.
Mas, claro está, e sem necessitar de refenciar a loucura tão esplicitamente quanto os exemplos anteriores, o grande louco do rock é e será sempre este senhor:

(Foto obtida aqui)


11/08/10

Ferramenta Literária

Uma ferramenta engraçada que, através da análise de textos (em inglês), descobre qual o escritor canónico ao qual a escrita se assemelha.

Submeti a tradução inglesa do meu conto “O Anjo Suíno”, publicado no quarto número da Detritos, e o resultado foi o seguinte:



I write like
Edgar Allan Poe

I Write Like by Mémoires, Mac journal software. Analyze your writing!


Como sou, por natureza, um desconfiado, tirei um excerto de Poe ao calhas do Guttenberg e submeti-o: segundo a máquina, Edgar Allan Poe escreve como Jonathan Swift. O que não destruiu a minha fé na máquina – antes pelo contrário: descobri-lhe uma nova dimensão. Imagine-se que dava continuação a este processo e submetia um excerto do Tale of a Tub ou do Battle of the Books para descobrir como quem escrevia o Swift, e assim sucessivamente, até descobrir se a minha escrita descende da casa de Homero ou da de Hesíodo. (Ou, se a máquina se mostrar insensível a anacronismos, descobrir, por exemplo, que Swift escreve como Thomas Pynchon.) Faltam-me, de momento, o tempo e a paciência, mas um dia ainda me hei-de servir desta maravilha informática para compor a minha árvore genealógica literária.

10/08/10

Xeque-mate!

Vladimir Nabokov
"[...] for he belonged to that rare type of writer who knows that nothing ought to remain except the perfect achievement: the printed book; that its actual existence is inconsistent with that of its spectre, the uncouth manuscript flaunting its imperfections like a revengeful ghost carrying its head under its arm; and that for this reason the litter of the workshop, no matter its sentimental or commercial value, must never subsist."


Vladimir Nabokov, The Real Life of Sebastian Knight

12/07/10

Devemos continuar a surpreendermo-nos com a depredação do homem pelo homem?*

 * após leitura de: Oscar Wilde, The soul of man under Socialism

…while under the present system a very large number of people can lead lives of a certain amount of freedom and expression and happiness, under an industrial barrack system, or a system of economic tyranny, nobody would be able to have any such freedom at all.


 Sim, infinitamente. Mas surpreendamo-nos mais ainda com as panaceias propostas, o incessante repetir das fórmulas vetustas, dos erros conhecidos e indeclináveis. O único remédio que ainda não provámos, aquele que constantemente nos negam, é a liberdade: tudo o resto ou é veneno ou banha de cobra.

Recusemos as tiranias do Estado; recusemos também a irresoluta tirania da incompetência, a homeopatia liberal: reconheçamos o polícia em nós, o invejoso, o bruto, o demagogo, e matemo-los constantemente. Rejeitemos as opiniões: não consintamos que cábulas nos governem ou que serralheiros nos deiam lições de estética. E assim por diante...

24/06/10

Saúdo-o no início de uma grande carreira

Com estas palavras, R. W. Emerson congratulou, numa das mais famosas cartas de entre as que alguma vez se escreveram a um autor principiante, Walt Whitman pela primeira edição da sua colectânea de poemas Leaves of Grass. Whitman, por sua vez, publicou a carta, em conjunto com a sua resposta em carta aberta na segunda edição (aumentada) de Leaves, e reproduzindo em letras douradas, na lombada, o ditame de Emerson que serve de título a este post. Um gesto venal, talvez, que arrefeceu o entusiasmo do filósofo do Massachusetts ante a obra e o poeta que ele mesmo havia conjurado*. Leaves of Grass conheceu um total nove versões durante a vida de Whitman (a derradeira é mesmo conhecida como deathbed edition), cada uma delas sujeita a revisões, acrescentos e, por vezes, remoções; em pelo menos uma delas, Whitman incluiria uma das inúmeras críticas desfavoráveis com que o seu livro foi acolhido: aquela que categoriza o volume como a mass of stupid filth e o respectivo autor como a filthy free lover.
Walt Whitman

É este cuidado para com o texto como coisa viva e dinâmica, esta dedicação a uma obra única que é, num mesmo movimento, testamento e celebração de si mesma, esta desassombrada consciência meta-literária que chama a si os seus subprodutos e exibe o galardão ao lado da invectiva, enfim, este domínio do objecto de expressão que é tanto ferramenta quanto produto, é tudo isto, dizíamos, que nos leva a invocar Walt Whitman, neste primeiro post, como padroeiro do Samizdat . He calls Walt: gritamos com Álvaro de Campos, e havemos de montar um altarzinho ao grande bastardo de Apolo para que nos guie ele, como espírito tutelar, na aventura da auto-publicação.


* Num ensaio de 1845, intitulado ''O poeta'', Emerson expressou a urgência de um novo tipo de poeta nativo aos Estados Unidos que cantasse as virtudes e vícios do jovem país; Whitman, ao iniciar a escrita de Leaves of Grass, estava a responder ao apelo de Emerson.